Escritora Maria Leôncio imortal da cadeira nº 30 da Academia Teixeirense de Letras se despede aos 98 anos e eterniza seu nome na memória literária da Bahia

A literatura do extremo sul da Bahia amanheceu mais silenciosa nesta terça-feira (26/05). Faleceu, em sua residência, em Teixeira de Freitas, a professora aposentada, escritora e imortal titular da Cadeira nº 30 da ATL – Academia Teixeirense de Letras, Maria Leôncio Nascimento. Aos 98 anos, ela encerrava uma travessia marcada pela delicadeza das palavras, pela elegância da memória e pela serenidade de quem transformou a própria existência em literatura. Nos últimos anos, enfrentava as limitações impostas pela longevidade, já sem mobilidade e com a visão comprometida. Ainda assim, permanecia fiel ao exercício da escrita: seus derradeiros textos eram ditados para uma das filhas, que os transcrevia e encaminhava à academia para publicação, numa demonstração tocante de amor à arte e resistência intelectual.
Natural de Lençóis, no coração histórico da Chapada Diamantina, Maria Leôncio carregava consigo a sensibilidade das montanhas e a profundidade das lembranças sertanejas. Ainda na década de 1950, licenciou-se em História e Geografia pela Universidade Federal da Bahia, iniciando uma longa trajetória no magistério. Durante três décadas, lecionou em cidades como Salvador e Ilhéus, formando gerações com o mesmo zelo com que, mais tarde, escreveria suas memórias. A família mudou-se para o sul baiano nos anos 1960, vivendo em Ilhéus e em propriedades rurais no município de Caravelas, até fixar residência definitiva em Teixeira de Freitas, cidade que a acolheu e também foi acolhida por sua inteligência e humanidade.

A saudosa Maria Leôncio no centro da FOTO.
Maria Leôncio deixa seis filhos – entre eles a ausência irreparável de uma filha já falecida -, 15 netos e 14 bisnetos. Foi companheira do saudoso engenheiro civil Edward Leôncio Nascimento, que comandou o antigo DNER em Eunápolis e Teixeira de Freitas durante as obras de construção da BR-101, nas décadas de 1960 e 1970. Figura respeitada no desenvolvimento regional, Edward foi homenageado com nome de rua em Teixeira de Freitas e tornou-se patrono da Cadeira nº 30 da ATL – justamente a cadeira ocupada por sua esposa, numa rara coincidência entre amor, história e eternidade literária.
Apaixonada pelas palavras e pelas reminiscências do tempo, Maria Leôncio transformou lembranças em patrimônio cultural. Em 2007, publicou o livro Garimpo de Lembranças e, em 2010, Destino: Extremo Sul, obras conduzidas pela prosa memorialística em primeira pessoa, gênero no qual navegava com rara naturalidade. Seus textos carregavam a cadência das recordações vividas e a ternura de quem escrevia não apenas para contar histórias, mas para impedir que o tempo apagasse pessoas, lugares e afetos. O reconhecimento de sua contribuição literária levou-a, em 2016, a ocupar a cadeira nº 30 da Academia Teixeirense de Letras, tornando-se uma das vozes femininas mais respeitadas da instituição.

A saudosa escritora Maria Leônio em momento de descontração com a sua confreira Cristhiane Ferreguett.
Profundamente emocionado, o presidente de honra da ATL, o jornalista e poeta Almir Zarfeg, relembrou a convivência com a escritora. “Tive a honra de conviver com a confreira Maria Leôncio e de usufruir de boas conversas e momentos amistosos, sempre acompanhado do também saudoso Carlos Mensitieri, pelo que sou e serei muito grato”, afirmou. Com o passamento da escritora Maria Leôncio Nascimento, o presidente da ATL, Raimundo Magalhães, deverá declarar nos próximos dias a vacância da Cadeira nº 30 e anunciar a tradicional Sessão da Saudade em homenagem à confreira que, aos 98 anos, transforma-se agora em memória eterna da literatura regional.

