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Aos 86 anos imortaliza-se Cacilda Borborema uma bandeirante da maior família aborígine do município de Prado

Cacilda Borborema, uma das precursoras da maior família aborígine do território de Prado.

A manhã desta última quarta-feira, 28 de janeiro de 2026, amanheceu mais silenciosa em Prado. Faleceu, aos 86 anos, à matriarca Cacilda Borborema da Silva Nascimento, uma das mulheres mais importantes da cultura indígena do município, que entra para a eternidade. Sua partida encerra um ciclo de vida profundamente ligado às raízes, à memória e à formação histórica de famílias tradicionais da região da Costa do Descobrimento do Brasil e deixa um Legado que floresce em gerações.

Quatro dias antes do falecimento, Cacilda Borborema passou mal e foi socorrida para a Unidade de Pronto Atendimento de Prado. Após ser medicada, retornou para casa, onde permaneceu sob os cuidados da família. No entanto, um derrame exigiu novo encaminhamento ao hospital, e, apesar dos esforços, ela não resistiu. A notícia rapidamente se espalhou, provocando comoção entre parentes, amigos e moradores que viam nela uma referência de sabedoria e serenidade.

Cacilda Borborema da Silva Nascimento com o sobrinho-neto Athylla Borborema e o esposo Benedito Pereira do Nascimento no pomar da família em Riacho das Ostras – FOTO de 19 de abri de 2014.

O velório foi realizado em sua propriedade rural, o Sítio Aline, na região do Riacho das Ostras, sub-região da Sudene, no litoral norte do município de Prado, onde a família está radicada há mais de 40 anos. Entre a brisa do campo e o silêncio respeitoso da paisagem, familiares se reuniram para prestar as últimas homenagens à matriarca que ajudou a fortalecer os laços da família Borborema na Costa do Descobrimento, alcançando os municípios de Santa Cruz Cabrália, Porto Seguro e o próprio Prado.

Filha dos bandeirantes indígenas Mariano Borborema Albergaria e Helenita Nunes da Silva, Cacilda era a penúltima entre nove irmãos e uma das responsáveis, dentre os nove filhos de Mariano Borborema, por expandir e consolidar a presença da família na região. Viúva de Benedito Pereira do Nascimento, de 90 anos, com quem compartilhou 67 anos de união, construiu uma família numerosa: dez filhos – Edson, Joel, Carlos César, Wilson, Valdelice, Adelice, Silvania, Marli, Zurmira e Marlene Borborema Nascimento, além de 45 netos e 75 bisnetos, formando uma descendência marcada por união e orgulho.

Cacilda e Benedito com seus familiares e alguns dos filhos da sua irmã mais velha Madalena Borborema – FOTO 2014.

Descrita como uma “serhumaninha” de espírito livre, de rostinho dócil e fala meiga, Cacilda Borborema carregava uma sabedoria ancestral e uma inteligência rural aguçada. Era dona de um coração gigante, mãe amável, avó de pura doçura e sorriso cativante, daqueles que iluminam ambientes e conquistam afetos. Cacilda Borborema da Silva Nascimento herdou dos pais a capacidade de constituir uma família de muitos legados e profundo valor histórico – herança que permanece viva na memória de todos que tiveram o privilégio de compartilhar sua presença.

Um pouquinho dos netos e bisnetos desta numerosa família de Cacilda Borborema – FOTO de 2014.

Origem da Família Borborema

O homem responsável por constituir a família Borborema no extremo sul da Bahia (Mariano Borborema Albergaria) era bisneto materno do paraibano Deputado Provincial José Jerônimo de Albuquerque Borborema. Mariano Borborema nasceu em 1884 numa aldeia indígena, denominada de “Vila Nova do Viquissá”, região de divisa com a Paraíba, que hoje é pertencente ao território do município de Santa Cruz do Capibaribe, no Vale da Borborema, no extremo norte do Estado de Pernambuco. Os pais de Mariano Borborema foram: Manoel Albergaria e Auta Barros Borborema.

Mariano Borborema era mascate e vivia da compra de roupas, calçados, miudezas e ervas medicinais na cidade vizinha de Caruaru para revendê-las na redondeza. Até que um dia, aos 28 anos de idade, no ano de 1912, o jovem Mariano Borborema embarca em um navio em Recife, capital do Pernambuco, e desembarca em Santa Cruz Cabrália, no extremo sul baiano, consigo uma carga de mercadorias que passa a mascatear pela região de Porto Seguro. Mas o seu coração foi fisgado por uma nativa selvagem que ele próprio havia capturado e domesticada para ser a sua mulher. Com ela, Mariano Borborema daria início a constituição da família Borborema na costa do descobrimento do Brasil.

Entre os anos de 1912 e 1913, Mariano Borborema Albergaria mascateando numa região onde compreende hoje do Arraial D’ajuda a Trancoso, no litoral sul do território de Porto Seguro, descobriu a casa dos índios Antônio Nunes da Silva “Tibiriçá” e Maria Siá da Silva “Apuã” que possuíam 5 filhos, inclusive três belas indiazinhas bravíssimas que mais pareciam bichinhos do mato. A mais velha era Rosalina Nunes da Silva, com 14 anos de idade e que logo seria capturada por Mariano Borborema e passaria ser a sua esposa.

O casal de índios “Tibiriçá” e “Apuã”, além da mais velha Rosalina Nunes da Silva, ainda tinha os filhos Demétrio Nunes da Silva, Sabino Nunes da Silva, Maria Cristina Nunes da Silva e Luzia Nunes da Silva. Mariano Borborema passou a freqüentar a casa do casal para negociar mercadorias, mas a sua grande intenção era conquistar a indiazinha mais velha. Mariano Borborema desde a primeira vez que desembarcou em Santa Cruz Cabrália ele retornou ao Pernambuco outras duas vezes para buscar mais mercadorias e na terceira vez que desembarcou na região ele não voltou mais para o Planalto da Borborema.

A vovó Cacilda Borborema com as sobrinhas-netas Gabriela e Michelle – FOTO de 2023.

Quando Mariano Borborema chegou em Santa Cruz Cabrália, no ano de 1912, a cidade já tinha 79 anos de independência política e a região vivia o seu melhor momento econômico. E em todo extremo sul da Bahia, só existiam na época 7 cidades emancipadas politicamente. Mucuri (desde 10 de outubro de 1769); Santa Cruz Cabrália (desde 23 de julho de 1833); Caravelas (desde 23 de abril de 1855); Belmonte (desde 23 de maio de 1891); Porto Seguro (desde 30 de junho de 1891); Alcobaça (desde 20 de julho de 1896) e Prado (desde 02 de agosto de 1896).

Mariano Borborema ganhou muito dinheiro vendendo novidades para um povo que pouco conhecia de utensílios que para os grandes centros não era novidade alguma. Com o dinheiro que ganhou mascateando Mariano Borborema adquiriu todas as terras próximas as dos seus futuros sogros na Foz do Rio dos Frades (região que compreende hoje o Oiteiro das Brisas, Setequara e Praia do Espelho) entre Trancoso e Caraíva, onde hoje são grandes as ramificações da família Borborema.

Mariano Borborema aos 28 anos já teria ganhado a confiança do casal de índios “Tibiriçá” e “Apuã” e até que um dia ganhou coragem e enfrentou o casal, lhe pedindo a sua filha mais velha de 14 anos em casamento. O pedido foi aceito pelos pais da moça e a garota também foi comunicada sobre a intenção do seu pretendente, mas houve um “porém”. O mais difícil foi capturar a indiazinha que deu uma canseira em Mariano Borborema de quase três meses, entre curtas e longas fugas pelo matagal.

Com ajuda dos pais a menina foi domada e até que um dia, ela foi capturada pelo pretendente e levada por ele, onde foi totalmente domesticada. Mariano Borborema estabeleceu residência na sede das suas terras, denominada de “Fazenda Setequara”, em tributo aos sete riachos de água doce da região que na língua indígena, riacho significa “quara”, de nitidez, cristalino, alvo, límpido, puro, quarar, de quarar roupa.

A impressionante semelhança entre tia-avó e sobrinha-neta / Cacilda e Michelle Borborema – um reencontro registrado em 27 de dezembro de 2023.

Com a índia Rosalina Nunes da Silva, o também índio Mariano Borborema teve 5 filhos. Mas a sua indiazinha não teria uma vida longa e logo deixaria Mariano viúvo. O casal teve os filhos: Julio Nunes Borborema, Madalena Nunes Borborema (que viria a ser a esposa de Lúcio Guedes da Silva, bandeirante da maior importância para o desenvolvimento de Cumuruxatiba e fundador da comunidade Guedes Borborema, na foz do rio Imbassuaba), Emilia Nunes Borborema e Áurea Nunes Borborema. No nascimento do 5º filho, a sua esposa Rosalina Nunes da Silva tem uma complicação no parto. Morre o bebê e também morre ela aos 30 anos de idade no ano de 1928.

Dois anos depois de ter ficado viúvo, na Foz do Rio dos Frades, no litoral sul de Porto Seguro, Mariano Borborema já com 46 anos, no ano de 1930, se casa pela segunda vez com a prima carnal da sua primeira esposa, a cabocla Helenita Nunes da Silva, 34 anos. No novo casamento Mariano Borborema tem outros 5 filhos: Anália Borborema da Silva, Sincundina Borborema da Silva, João Borborema da Silva, Cacilda Borborema da Silva e Clara Borborema da Silva.

No dia 10 de julho de 1952, morre o patriarca Mariano Borborema Albergaria, aos 68 anos, sem imaginar que os seus 9 filhos transformariam o seu legado numa gigante população Borborema e constituiria uma das famílias mais promissoras da Costa do Descobrimento. Tanto que no dia da sua morte, nasce a sua 12ª neta Edelvira Borborema da Silva, germinada da sua 2ª filha Madalena Nunes Borborema.

Dois anos depois da morte de Mariano Borborema, morre também a sua segunda esposa Helenita Nunes da Silva, aos 58 anos, no ano de 1954. Antes de morrer, o casal encaminhou todos os seus filhos que mantiveram sua história na “Fazenda Setequara” atual Praia do Espelho, na região do balneário de Caraíva, no litoral sul do território de Porto Seguro. Mariano Borborema quando morreu, já residia numa nova propriedade rural que havia adquirido por incentivo do genro Lúcio Guedes da Silva na região da Foz do Rio Imbassuaba, adjacente do balneário de Cumuruxatiba, no litoral norte do município de Prado.

Cacilda com o sobrinho-neto Athylla Borborema, mulher de sabedoria ancestral que nos deixa uma herança de amor e história no município de Prado – FOTO dezembro de 2023.

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